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  • 06 de Mar / 2019 - Otílio de Paiva
    Coluna de Literatura – por Otilio de Paiva
    Nesta semana, confira o conto “Uma pitada de esperança” do escritor catalano Otilio de Paiva
    UMA PITADA DE ESPERANÇA

    Nesta semana, confira o conto “Uma pitada de esperança” de Otilio de Paiva (Foto: Arquivo Pessoal)
              

                  Engraxar, doutor? Então, põe o pé aqui. O preço? É barato. Não vou explorar o senhor.  Não, não engraxei muito hoje. Só gozação. Não sei porque as pessoas gostam de mexer com a gente. Vai ver porque sou menino, pobre e precisado. Quantos anos? Doze, doutor. Sim, tenho que trabalhar, a gente é pobre. Meu pai é braçal e minha mãe lava roupa prá fora. Não, não conseguem outro emprego. São analfabetos. Não puderam estudar pois tiveram desde cedo que ajudar em casa. Como eu. Já, doutor. Já tem tempo que trabalho como engraxate. Antes vivia vagabundeando, com outros amigos, meninos de rua. Mas umas mulheres me deram esta caixa de engraxate e comecei a trabalhar. É melhor. Já tenho um começo. Estudar? Bem, a gente vai à escola quando pode, pois a mãe e o pai querem mais é a gente ganhando algum para ajudar em casa. Pedir, não doutor. Não é bom viver às custas dos outros. O bom é gastar o que se ganhou. Só que ainda não tive esta alegria. O pai toma tudo para ajudar em casa. Sim, meus amigos, meninos de rua, têm vergonha de pedir. Tenho um amigo de treze anos que com vergonha de pedir com todo mundo reparando, achou melhor roubar. Concluiu que podia ganhar mais e evitar de ser humilhado, pois tem a esperança de que ninguém vai saber. Um outro conhecido meu, pela mesma razão, entrega cocaína. Comida? Não temos muita em casa não, doutor. De manhã, eu e meus irmãos - somos quatro - brigamos por causa do pão. A mãe divide. É só um pedacinho para cada um. Muitas vezes, ofendemos uns aos outros na briga por um pedaço maior. Almoço e janta? É assim: no almoço, arroz, feijão e uma mistura, verdura, alface ou abóbora, quando tem. À noite, a gente mistura o que sobrou, põe farinha de mandioca e divide bem divididinho pois não é muito. Frequentemente, a gente dorme com fome. Doces, carnes, lanches, essas comidas diferentes? Que é isso, doutor? Nem pensar. Só gente rica. O outro pé, doutor.  Sim, recebemos ajuda. As igrejas, as associações dão comida; às vezes até roupas. Ajudam a gente, mas é pouco. Não é todo dia. Se são simpáticos? São sim. Só que quando chegam para fazer a doação, às vezes ficam com cara de superior e são, exageradamente, carinhosos. Parece falso. Parecem mais preocupados com a impressão que vão causar do que com a nossa precisão que não acaba. Como nos sentimos? Ficamos agradecidos. Mas temos todos um pouco de vergonha de aceitar as coisas dadas. Mas o que fazer? O pior é que quando é comida não conseguimos esconder nossa alegria, nossa pressa de receber, o que é humilhante. Não, eu prefiro mais é não precisar ganhar. Se o pai tivesse um bom emprego, ganhasse bem, eu ia gostar mesmo era de ver ele ajudar e não ser ajudado. Se nós pobres nos ajudamos? Sim, temos muita solidariedade para com os outros pobres como nós. Nós sabemos pelo que eles passam. E depois, estamos sempre precisando deles também. Os políticos? Ninguém acredita. Às vezes, eles dão alguma coisa. Ajudam a resolver um ou outro problema miúdo. Mas aquelas promessas grandes como a de oferecer emprego para todo mundo, nunca cumprem. E já vêm prometendo isso há muito tempo. O pai diz que quando ele era menino, os políticos já faziam este tipo de promessa. Não sei como têm coragem de continuar prometendo. Quando morre alguém? Doutor, lamenta-se muito pouco. Se morre um pai de família, a mulher e os filhos choram porque perderam o marido, o pai e o sustento. São quase só eles. O resto das pessoas não lamentam muito não. Acho que pensam que quem morreu, na verdade, não perdeu nada. O pai? Trabalha na roça. Quando há emprego. E às vezes não recebe. Estes dias aconteceu uma coisa que revoltou a gente. Ele foi trabalhar na roça. Chegou lá, ficou doente e não pode trabalhar. O patrão, olha só que coisa, quis que ele pagasse a boia que comeu! Não, não pagou. Com o quê? Sim, meu pai é muito doente. Quando ele não pode trabalhar, a mãe sofre porque a comida fica mais pouca. Minha mãe pensa que eu não sei, mas ela sai com outros homens por causa do dinheiro. Mas vai tudo nos remédios para tratar o pai. Sim, tenho uma irmã. Quatorze anos. Não doutor, ela não é disso não. Mas, pensando bem, pode acontecer, eu reconheço. Ela não é muito bonita mas é novinha e isso parece que atrai. De vez em quando, passa alguém de carro, querendo conversar, oferecendo coisas, mandando recado pelas amigas. Eu tenho medo que acabe topando. Qualquer dinheiro ou presente é muito bom para quem não tem nada. De repente, acaba até mais respeitada e invejada pelas amigas, pois se mostra desejada, possuidora de bens materiais. Ela tem uma amiga que não passa mais dificuldades. Tem dinheiro, roupas bonitas, passeia de carro e ajuda em casa. Só tem treze anos. Sim, os homens dão em cima. Este interesse por sexo é muito esquisito. O senhor acredita que um homem ofereceu dinheiro para um amigo meu? Não doutor, não tenho namorada não. Primeiro, sou novo ainda e, depois, quem iria olhar para mim com as roupas que visto, os dentes que tenho e sem um tostão no bolso? Sim, doutor, a vida de gente pobre é muito difícil. Marginalidade? É verdade. Essa situação de precisão de tudo leva à marginalidade. Mas eu não, doutor, eu não vou ser marginal não. É uma vida sofrida. Principalmente aqui na cabeça, doutor. Eu conheço um cara que rouba, vende e usa cocaína e maconha. Ganha dinheiro, veste bem, quer comprar um carro, mas disse que não é feliz porque se sente marginalizado e evitado pelas pessoas de bem da comunidade. Sim senhor, eu gostaria de progredir, ter carro, casa, casar com uma mulher bonita e chique, quando chegasse a hora é claro, ter filhos que tivessem uma vida diferente da minha... Mas isso é impossível, doutor. Eu não tenho chances. Mas eu vou lutar para conseguir alguma coisa e tirar desta vida algo de bom. Conseguir um emprego fixo, ter algum dinheiro no bolso. Eu não tenho preguiça, doutor, e não tenho medo da vida não. Pior do que estou é impossível. E se der para viver melhor, um pouco, vai ser bom. Vou trabalhar firme e chego lá. Sabe doutor, na verdade, eu tenho muita esperança e ter esperança já faz a vida ficar melhor. Pronto, doutor.  

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