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  • 27 de Mar / 2019 - Otílio de Paiva
    Coluna de Literatura – por Otílio de Paiva
    Nesta semana, confira o conto "Nos Testículos", do escritor catalano Otílio de Paiva
    NOS TESTÍCULOS

    Escritor catalano Otílio de Paiva (Foto: Arquivo Pessoal)
     

            O delegado Raimundo chegou cedo na delegacia, acariciando um desejo e remoendo um problema. O desejo era estar com sua amante que há dias não via. O problema era uma intimação do Juiz da Comarca para comparecer ao Fórum. Por isso, esperava despachar uns poucos papéis e deixar para trás o marasmo da sua currutela. Mal entrou na delegacia, pressentiu que não ia poder sair tão cedo. O Zé Pipoca estava sentado na ante-sala, com ar amedrontado, os olhos esbugalhados e quase em estado de choque. O delegado entrou em sua sala, chamou seu subserviente escrivão e pediu informações. O escrivão foi logo dizendo:
               - O Zé diz que tem uma acusação grave a fazer. Segundo ele, o Mané Gruvira quis capá-lo. Por isso veio fazer uma queixa. 
             - Capar como? Que estória é essa? Traga o homem rápido. Preciso resolver isso logo. Segundos depois, o Zé Pipoca já estava na sala. Mandaram-no sentar-se, o que fez agilmente, ansioso para contar tudo.
               - Desembuche, Zé. O que aconteceu? - intimou o delegado.
               - Foi o Mané Gruvira, seu delegado. Quis me capar. 
               - Explique direito. Como foi isso?
             - Lá na praça, doutor - iniciou, já mais calmo. - Eu estava passando, entretido cá com os meus pensamentos, quando ele me mandou parar. Estava com seu cachorro na corrente. Aí ele disse: - Zé, quero te mostrar uma coisa. Soltou o cachorro, apontou para mim e gritou para o animal: - “Nos testículos”. O cachorro correu para cima de mim, me derrubou e levou a boca aqui mais embaixo, o senhor sabe.
               - Eu não sei de nada - apressou-se. - E mordeu? - perguntou assustado o delegado. 
              - Não. Não mordeu. Mas ficou soprando seu bafo quente em mim. Acho que ficou com dó. Depois o Mané chamou ele de volta.
                 O delegado começou a perder a paciência.
               - Valha-me Deus - pensou - cachorro castrador com rasgos humanitários. Gozação não. Evitando perder a paciência com o Zé, procurou levar na ironia.
               - Por acaso Zé, você, digamos, quer dizer, anda pulando a cerca? Quer dizer, dando uma assistência lá na casa do Mané, quando os caçadores de onça o levam como isca, sob o pretexto de precisarem de cozinheiro.
               - Que que isso, doutor? A Luzia está um bagaço. Se fosse há vinte anos atrás, até podia ser - disse o Zé e, todo cheio de razão, deu um sorriso maroto.
                 O delegado ficou desconcertado e voltou à questão principal.
               - Um homão com medo de cachorrinho? 
          - Cachorrinho não, doutor. O cachorro é imenso. É um fila, doutor. É vergonha confessar, mas eu fiz xixi na calça, doutor. 
              - Aí, já é demais. O Mané tava armado. Escrivão, manda o soldado Catulo buscar aquele nego safado - determinou o delegado.
              Meia hora depois, chegou o Mané Gruvira de chapéu na mão, com um ar de humildade que não enganava ninguém. Afinal, Mané tinha fama de sagaz e irreverente.
               - Então, Mané - foi logo dizendo o delegado - hoje você deu um show na praça, as custas do Zé Pipoca não é mesmo? 
                - Doutor, foi só uma brincadeirinha. Na verdade, um teste. 
                 O delegado, irritado por estar sendo retido por uma questão absurda e diante do ar debochado e displicente do Mané, julgou necessário fazer uma sucinta, porém incisiva preleção.
               - Mané - começou - hoje eu não estou para conversa fiada. Estou precisando ir urgente ao Forum da Comarca para ver o Juiz. Juiz que aliás quer me passar, eu presumo, um sermão por causa do meu caso com a Rita, irmã do promotor. Aliás, Juizinho muito presunçoso, pois isso é problema meu. Assim como é problema dele as negas que sustenta. Mas isso não importa e, pensando bem, não é da sua conta. O que você precisa saber mesmo é que eu estou de mau humor e não quero conversa fiada. Assim é melhor você esclarecer este caso de forma bonita e miúda. Senão, já sabe, vou ser obrigado a mandar o Catulo conversar com você lá nos fundos, entendeu?
                 Mané arregalou os olhos, mas não muito, e respondeu: 
                - Sim, Senhor.
                - Então Mané, vá expondo, vá expondo.
                - Precisamente, o que o Senhor quer saber? - perguntou com inocência angelical.
              - Eu vou machucar este meliante. Eu não admito cinismo - raciocinou o delegado. Com voz sibilante esclareceu:
               - É verdade que você estimulou-se-lhe o cão e que ele só não foi castrado por que o seu cachorro ficou com dó?
                - Meu Deus - pensou - eu não podia dizer isso. A culpa é deste moleque.
                - Não foi bem assim, doutor. Na verdade o comando para castrar é outro. Quando eu digo “nos testículos”, é só para o cachorro ameaçar. 
               - E o senhor poderia, por fineza, me dizer qual é o comando para castrar? - tornou o delegado baixinho como que querendo evitar a todo custo se tornar extremamente bruto e inconsequente.
                - É “nas bolas”, doutor.
            - Então é assim. O senhor além de reconhecer que treinou o seu cachorro para missões de castração de cidadãos honrados, ainda quer me convencer que seu cachorro é capaz de fazer distinções entre ordens de castrar e ameaçar? Mané, se isso fosse, observe bem o português, seu analfabeto, se isso fosse possível, este cão seria mais inteligente que muito Ministro da Economia, o que eu não admito. Portanto, não me venha com essa. 
            - Que é isso, doutor? É verdade. Aliás, o teste que fiz me convenceu que o Trinchante aprendeu a lição direitinho. 
           - Trinchante! Meu Deus - pensou o delegado, já desejando amolar as facas da delegacia no lombo do depravado do tal Trinchante. 
               - Mané, - tornou o delegado, prestes a explodir e mandar recolher ao pela-porco o presunçoso proprietário canino - existe lei e isso que você fez é crime. Seu cachorro é um perigo. E foi, na verdade, seu cúmplice. E eu, já não tenho dúvida, vou ter que te recolher e processar, e também, sacrificar o seu cachorro, pois se tem uma coisa que eu não admito é cachorro marginal nesta currutela.
            - Doutor, - emendou aflito o Mané - se o senhor deixar posso provar que o Trinchante é inteligente, sabe distinguir as ordens e que não ia, definitivamente, ferir o Zé.
            - Por acaso você vai sugerir que eu tome o depoimento do animal? - disse o delegado, trincando os dentes e fechando um olho.
              - Não doutor, com todo o respeito, eu queria sugerir uma perícia.
             - Vou mandar recolher. E recolher com todas as cerimônias de praxe. Que sujeitinho mais abusado - concluiu o delegado, mas se conteve. Resolveu dar uma última chance ao Mané.
               - E que tipo de perícia o senhor sugere, seu Mané? 
              - O seguinte, doutor. O senhor me arranja alguém e nós vamos lá para a rua. Ai eu digo para o Trinchante: ‘nos testículos”. O senhor irá perceber que ele vai, simplesmente, derrubar o voluntário e ameaçar de castração, nada mais.
          O delegado, transtornado pelo absurdo que acabara de ouvir, com a cara congestionada pela raiva e indignação, talvez buscando socorro, olhou para o escrivão da delegacia que, estando sentado ao lado do delegado, pronto para datilografar um eventual depoimento, ouvira toda a conversa. O escrivão que, até então, se divertia com aquele diálogo inusitado, levantou-se, num salto, pálido, com as pernas bambas, pensando que o delegado tinha decidido indicá-lo para submeter-se a perícia requerida pelo Mané. Quase em pânico, não vacilou e disparou aflito:
             - Doutor, nós somos amigos há muito tempo e o senhor sabe que pode acreditar em mim. Na verdade, doutor, eu conheço o Mané desde criança e nunca o vi mentir. Se disse que queria brincar, fazer um teste, pode acreditar, doutor. O Mané é gente finíssima.     

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