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  • 17 de Abr / 2019 - Otílio de Paiva
    Coluna de Literatura – por Otílio de Paiva
    Nesta semana, confira o conto “ O Contrato”, do escritor catalano Otílio de Paiva
    O CONTRATO  

    Escritor catalano Otílio de Paiva, durante viagem à Holanda (Foto: Arquivo Pessoal)
              
              - Vamos, sente-se. Já pedi a bebida. Um chope geladinho que servem aqui. Uma delícia. 

              - Mais deliciosa que aquela garota ali? Veja só que mini-saia generosa. E os pelos das pernas? Dourados.

              - Você está muito assanhado.

              - Mas ela não é um amor? 

              - Sim, é. Sofisticada. Viu só o bom gosto dela no vestir, a maneira de andar, o porte seguro e enérgico? É uma garota que sabe o que quer.

              - E o nariz empinado e aqueles óculos escuros, estilizados. Ela mais parece uma pantera. Um felino em busca de uma presa. 

              - Bobagem. É só o jeito, a atitude. Deve estar, sabendo-se admirada, escolhendo a gosto.
              - Mas que está caçando, lá isso está.

              - Eu gosto desta atitude delas, as sofisticadas. Isso passa um mistério, uma sensação de possibilidades ilimitadas, permeadas de muita energia e disposição. É erótico e me excita. Muito.

              - Por isso, você tem uma mulher que além de bonita é extremamente sofisticada. 

              - O que é que você acha?

              - Taí uma coisa que me incomoda. Adoro a sofisticação nas outras mulheres mas não na minha.

              - Eu não entendo.

              - Às vezes, eu também não. Mas é um fato.

              - Mas isso é uma tremenda contradição. Como se pode gostar e não gostar?

              - Mas o mundo é cheio de contradições, meu amigo. Me responda. Como se pode desejar fazer amor com todas as belas mulheres do mundo e casar-se antes de ter tentado, como acontece com a maioria de nós.

              - Você está fugindo da minha pergunta. 

              - Está bem. Eu vou tentar responder. Adoro as mulheres sofisticadas que vejo na rua. Sinto que se pudéssemos estar juntos, sermos amigos ou amantes, seria ótimo. Mas a sofisticação da minha mulher me traz insegurança. 

              - Mas o que lhe causa medo? A infidelidade? Bobagem. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. A sofisticação é uma postura e o sexo é fruto do desejo. São motivações diferentes.

              - Não é bem assim. O desejo da mulher pelo homem nunca é só físico, como costuma quase sempre ocorrer com o homem, que se sente atraído por uma mulher sofisticada num dado momento e noutro enche-se de gozo acariciando uma mulher burra e mal cuidada, desde que atraente. Há uma forte dose de espírito no desejo da mulher e a sua sofisticação a influência e a leva a fazer mais exigências e ser mais seletiva no desejar.

               - Concordo até aí. Mas feita a escolha, nada a impede de ser fiel.

              - No seu caso, eu concordo. Quando você se casou, sua mulher já era culta, experiente, sofisticada. Ela te escolheu sob um prisma maduro, evoluído, pode-se dizer quase que definitivo. Se você corresponde as suas expectativas de então, ela te amará e desejará sempre. Mas comigo é diferente. 

               - Diferente como? 

               - Eu não casei com uma mulher culta, experiente e sofisticada. Ela se sofisticou depois. Antes era uma mulher ignorante, pura - casou-se virgem - desambiciosa, tinha uma visão tacanha do mundo e casar, ter uma casa, cozinhar e criar filhos era tudo o que ela queria. Mas agora não. Acaba de cursar a faculdade, tem simpatia pelo PT, fala de Marx e do Guilherme Boulos com desenvoltura e está deixando-se seduzir pelo ideário feminista.

               - Mas isto é evolução e você que é um cara esclarecido não pode ser contra isso. 

               - Mas aonde vai parar esta evolução? O leque de aspirações dela está aumentando cada vez mais. Daqui a pouco, ela vai querer conhecer mais da vida, mais do sexo que já teve até agora. Quem sabe até me acusar de ter-lhe roubado alguma coisa, seduzindo-a antes que soubesse o que realmente queria ou quem sabe passar a me achar bobo, atrasado e grosseiro. Aliás, eu a tenho percebido, volta e meia, admirando as qualidades de outros homens, como gentileza, refinamento no vestir, adequado comportamento à mesa, em reuniões sociais, etc.

               - Mas você tem que considerar uma coisa importante. O amor. O amor não conta? 

               - Mas o amor não resulta de expectativas? No caso da mulher resulta do que o homem pode oferecer a ela em qualidade de carinho, postura, comportamento, segurança, entendimento. Não são estes pré-requisitos que aproximam os amantes?

               - Nem sempre. 

               - Mas é exceção. Quando os parceiros não preenchem estes pré-requisitos, e são, então, diferentes e desencontrados, vivem em conflito e a relação, mais cedo ou mais tarde, acaba.

               - Pensando bem, você tem razão. 

               - Pois então eu te pergunto: E se de repente eu não conseguir continuar correspondendo às expectativas da minha “nova” mulher?

                - Bem, então, você tem que evoluir.

                - Concordo. E eu procuro isso. Mas o ser humano é multifacetado, fragmentado e cada um, a partir do básico, corre o risco de evoluir por lados diferentes, e nem por isso estarem errados. E depois...

               - E depois?

               - Depois, para aceitar a evolução dela, as diferenças que surgem, eu tenho que mudar tantas outras coisas em mim. Crenças que professei a vida inteira, expectativas que fiz dela, o sonho da nossa vida em comum que edificamos juntos ao começar nossas vidas. Por isso eu me sinto, repito, inseguro e mesmo infeliz. A nossa evolução, e principalmente a dela, pode ser perigosa. Ao invés de nos aproximar, poderá nos distanciar, mesmo porque me repugna a ideia de recalcar as suas vontades ou subjugá-las às minhas, mesmo que honestas. Na verdade, e eu, neste caso, não tenho dúvidas, a evolução é o rompimento de um contrato.

               - Contrato?

               - Sim, um contrato amoroso e vivencial.

               - Você está falando grego. Realmente, meu amigo, você está confuso. Está complicando as coisas.

               - Não estou não. Quando casamos, ela era outra pessoa, tinha uma maneira de pensar e expectativas que me agradaram. Por isso eu me apaixonei e a quis tal como era. Mas ela mudou. Não é mais a mulher com quem me casei. O que a minha mudança significa para ela só ela pode dizer. Mas no que me diz respeito, a mudança dela me afeta e me desespera. Por isso eu digo: na medida em que ela mudou ou evoluiu, se você prefere assim, e isso me aborrece, contraria ou causa-me insegurança, ela rompeu o contrato e não tem o direito de me impor isso.

               - Mas assim você quer que as pessoas estacionem, não evoluam, que o mundo permaneça estático. Isto é impossível e desumano. 

              -  É, talvez você tenha razão.  O mundo é dinâmico e as pessoas diligentes e criativas. Forçosamente uns menos e outros mais acabam mudando e evoluindo, agregando novas expectativas e desejos ao seu ideal de vida. Até aí tudo me parece muito bonito. Mas e quando se evoluir, no caso a minha mulher, para algo que não me agrada, para expectativas que não posso corresponder?

               - Considerando que a sua simultânea evolução pode não ser a solução, pois como você mesmo disse poderá evoluir em outro caminho e acabar distanciando-os mais, eu tenho que dizer que só lhe restará adaptar-se.

               - Que merda de vida você me propõe, meu amigo. Adaptar-me? Isto não lhe soa como capitulação, conveniência ou covardia? 

              - Talvez a necessidade de conservar o casamento fale mais alto e justifique aquelas atitudes.

              - Pois eu penso diferente, meu amigo.

              - Pode-se saber?

              - Simples. É preciso que se pare de dizer que o casamento e mesmo o amor devem ser eternos.

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